terça-feira, 16 de outubro de 2007

Outubro, as formigas, hibridismo cultural

Lendo a crônica “Tanajura como alimento” de Drummond, me senti próxima, íntima do poeta que lá interior mineiro também já se deliciou outrora com essas formiguinhas vitaminadas. Lendo, despreocupadamente, pensei nas tanajuras da minha infância voando em bando, aos milhares, povoando as minhas memórias. Que brega, hein? Mas é isto mesmo. Escuto agora até os sons, sinto o cheiro... Pensei naqueles momentos após as chuvas em que as formiguinhas rechonchudas passeavam pela terra fértil para se deleitarem com o ar puro. Mas era assim mesmo? Sei lá. Verdade verdadeira só resta esse fragmento de vivência infantil... pedaços. Mas vamos às memórias.
Saíamos com as nossas latas (de leite ninho, geralmente) para os formigueiros nos arredores de nossa casa. Eram tantos formigueiros que não havia problema de inflação da colheita, ou seja, as danadinhas eram muitas, milhares, milhões talvez. E na caça, dançávamos ao redor da morada das tanajuras, os buracos, pulando diante das possíveis ferroadas. Era pura guerra. Tudo valia a presa ou a conquista. As bichinhas tão indefesas eram, aos montes, rapidamente postas em nossas latinhas que ficavam entupidas das coisinhas que faziam muito barulho, talvez comunicando o desepero da morte eminente. Barulhentas. Eram muito zoadentas. O que interessa é que corríamos para casa para a grande farra. Não do boi mas dos insetos. Primeiramente a gente decepava, tirava os seus ferrões, e, em seguida, amputávamos as suas perninhas. Uma a uma. Depois, panela e óleo bem quente. Que maldade! O cheiro que resultava desta combinação era tão especial que podia ser sentido à distância. Com poucos minutos ficavam tostadinhas, e, com um pouquinho de farinha resultava uma mistura tipo preto no branco. Muito especial. E finalmente: direto para a boca. Pura proteína.
Falei rápido?
Síntese: as formiguinhas que adoram devorar eram devoradas sem piedade.

Nenhum comentário: