terça-feira, 16 de outubro de 2007

Meta(formo)se de Leminski

Seguem fragmentos ou insights da leitura do livro de Leminski apreciado no século passado. O critério de seleção foi e é totalmente sensibilante, isto é, o que bateu aos olhos, ouvidos, ou ao coração.


• Teseu limpa a espada no manto e sai, com uma morte na alma do tamanho da noite.

• Tudo pode se transmutar em tudo.

• Esta noite, nada permanece em seu ser, os seres padecem as dores do parto das mais improváveis alterações.

• ... sagradas todas as árvores que o raio, falus, de Zeus tocou.

• Água, sangue, vinho: que deus escondeu na uva o vento louco da embriaguez?

• Os homens são os órgãos sexuais das fábulas.

• Narro, logo existo.

• O luminoso princípio vai sair vitorioso das forças noturnas do Caos primordial, como Apolo sobre a serpente Python, as maternas forças noturnas, do interior da vagina, os calores subterrâneos, a fecundidade indiscriminada dos abismos femininos, a serpente, o verme, o fedor, o formigamento fértil da terra, água e sol.

• Que é um eco senão a transformação de uma voz em pedra, no eternamente idêntico a si, mesmo, como fazem as letras do alfabeto, inventadas por aquele Cadmo, filho de Agenor, rei da Fenícia, e da rainha Telefasse?

• Amor é aquilo que subsiste mesmo depois de você dizer, não te amo mais.

• Se espelho existe, ser não existe.

• Esta fonte é uma fossa, esgoto, lixo, cloaca de mitos.

• Mitos mortos fedem, o cheiro dos reis mortos, rios estrangulados por Hércules.

• ... amar é ficar fora de si, por um tempo, e, depois, voltar, outro.

• Se eu pudesse escolher outra coisa que não Narciso, em que me transformaria? Narciso, Narciso, Narciso.

• Amar é sempre mais.

• ... a letra é a morte da memória, olhar de Medusa no havido, havendo e por haver.

• Águas de sangue, águas de vinho, por Dionísio!, por que não bebo toda esta fonte num gole só?

• Ave, Pandora, mãe dos mortais abre esta tua caixa-buceta, e deixa que todos os males se exalem, só fique no fundo a esperança, calcanhar de Aquiles onde dói ser semi-deus.

• Esta fonte é esgoto de mitos, merda feita de sangue, sangue feito de porra, donde vem tanta força, formas de formas se transformando em novas formas?

• Uma história, sempre uma história, tudo termina em fábula, milagre, acaso, evento de probabilidade nula.

• O amor é amoral. Eu me amo não posso mais viver sem mim.

• Quem me dera uma máscara para repousar meu rosto de todo este vão mudar.

• Não se pense que vou ficar assim a vida toda. Um dia, eu mudo, vão ver.

• No carnaval das transformações, passa a sombra de Medusa, dor sem fim de virar pedra.

• Sempre virar, sempre mudar, nunca se sustentar em seu próprio ser.

• Tudo são deuses, o medo, o acaso, a esperança, tudo filhos do destino.

• Rios passam, não passa este meu rosto.

• A dor é um deus, dor ninguém esquece.

• Só esquecer é eterno.

• Que espelho poderia conter o sol? Mito, rito, minto mundos, enquanto vomito três mil deuses por segundo, a fonte é uma poça de vômito e sangue, desaparecendo meu rosto sem igual.

• Eco, eco, Medéia, Circe, todas malfeitoras.

• Sinto cheiro de buceta, meio rosa, meio peixe, que deus tira o outro do lugar?

• Como todo eco, nem todo ego é cego.

• Água na água, eco no eco, por todos os séculos dos séculos dos séculos dos séculos dos séculos dos super-hiper dos supra-tempos de além-milênios...

• Morreu um deus, morrem todos, a teia de Aracne, a tela de Penélope é inconsútil.

• Ouço ao longe, muito longe, a voz do eco que me chama, mas já não tenho um nome para ser chamado. Que deuses me tomam como matéria-prima? Em que fábula me transformo?

• (Narciso morre de sede, ao beber sua imagem).

• Mito (fábula), conceito e número: esses os três instrumentos com que a mente humana procura colocar ordem no caos desconexo dos fenômenos.

• Mito, fábula, imaginação: quem não tem imaginação, não tem religião.

• A inesgotavelmente luxuriante opulência do imaginário grego antigo é um prodígio (mais rico, só o Catolicismo).

• De Homero a Goethe, passando por Dante e Shakespeare, numa linha ininterrupta, durante mais de dois mil anos, o imaginário grego sempre foi o primeiro alimento do poeta ocidental culto, seu “soft-ware” de fantástico, referencial de imagens, delírios compartilhado.

• Os gregos parecem ter imaginado todo o imaginável.

• O mito é o saber oral.

• O mundo do Mito é o mundo intra-uterino da crença. A Flexão. A genuflexão.

• A modernidade começa com um pensar sobre os Mitos.

• Não basta mais crer, receber e aceitar. Os filhos de Prometeu se rebelam.

• Essências, metamorfoses: essas as matérias-primas com que trabalha o tão estável e instável espírito humano.

• “Mito” é palavra fundadora, a fábula matriz, a estrutura primordial, leitura analógica do mundo e da vida.

• O mistério da vida se explica com os mistérios das fábulas. As fábulas contém a chave semântica última dos eventos e efemérides.

• Um Mito não se supera.


Fortaleza, 1995

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