quinta-feira, 23 de setembro de 2010

coisas de Betinho

... ah,ele adora teatro

comendo qualquer coisa - pipoca refri-, claro
enquanto mãos e boca trabalham
os olhos arregalados acompanham a cena

bate palma quase sempre pede bis
não se cansa das figurações, dos roteiros

já tem planos de ser também um ator
pois ele não é bobo: brincar de ser outras gentes
deve ser mais divertido...

bestando na madrugada

a calma da casa
o silêncio quando todos os homens dormem
os meus pensamentos ruidosos
o zumbido do micro
os carros na avenida
a tela-página branca
desespero nenhum
tenho mais de 40
metade da vida
deixa a gente menos de tudo
até da necessidade do sempre querer algo
vou dormir
em quase-paz

fui
fomos
f

domingo, 12 de setembro de 2010

acordei tarde

a fome sem vontade de comer é esquisita
amolece tudo
até a vigorosa batalha
de querer estar viva

mas passa logo logo
e devoro qualquer coisa com urgência

sábado, 11 de setembro de 2010

isto e aquilo

quero tudo isso
talvez aquilo
o que nem sei o que é
nisso fico feliz de querer aquilo
isto me deixa mais esperta
para brincar de viver

bursite

como dói as bursas inflamadas
bolsas assim assim "maltratadas"
limitam os movimentos do meu corpo

meu ombro esquerdo carrega tantos sonhos
poucos possíveis
de uma esquerda
de luta

terça-feira, 7 de setembro de 2010

caixinha de música

carrego em meu carro
a caixa velha de um rádio que foi do meu avó Zeca
objeto de luxo da casa no sertão central do Ceará
me lembro que desta caixa ecoavam músicas de Roberto Carlos, Antonio Marcos, Angela Maria, Luiz Gonzaga

explicando: o miolo do rádio se foi
talvez com defeito ou sem jeito a loja de conserto
o jogou no lixo

a questão é que a caixa serve mesmo assim
já que é um material que me liga há tempos perdidos
que nem busco mais

razão: carrego a velha caixa para ajustar a deterioração dos cupins
que comem com voraciadade pedaços da minha infância

nem sei bei como dar um jeito nesta história
talvez nem haja jeito


as andanças pra lá e pra cá da caixa a balançar nas ruas da cidade
de repente posso ter um acesso de desapelo
e dar um fim nestes sons que em perseguem


Ah, sim, tenho outros objetos: um banco, uma cadeira
peso vivo da memória da família

às vezes até me canso
não sou eles e elas
eu sou assim
assim
assim
as
A

pesada da vida alheia

ouvindo George Harrison

você,
ah, você
você você

Ah, você
é você
você
você

voc
vo
v
....
ah,
,

livre

se a vida não basta
quero mais é fazer arte
arteira serei para as horas suportar

coisas de Bebel

Em meio às conversas das pessoas grandes, sem entender ou ter interesse, ela corre e abre o livro. Diante das páginas, viaja pelas narrativas. Esquece tudo, todos. Quando é chamada para cena real, fica chateada pela pertubação: interronper as peripécias pois ninguém merece ser arrancada de seu mundo particular para o mundo de gente grande.

coisas de Bia

1. Bia sorri a toda hora. Pega o pé do pequeno cão - o Drade - e o arrasta. Sem medo de levar uma mordida, brinca com o animalzinho. Parecem amiguinhos. Sem noção do instinto da mordida, ela pensa que é tudo igual.

2. Olha para as pessoas devorando a sobremesa. Sem palavras come com os olhos as guloseimas. Até que alguém caridoso oferece um pouquinho. Saboreia com intensa vontade de perceber as texturas e gostos de cada ingrediente... aprende um pouco sobre a doçura de ser viva.

memórias infantis 1

Eu me recordo que ainda era cedinho da noite, quando olhei para o meu avó se balançando silencioso na escuridão da varanda. Ele estava meio sinistro, meio assustador... Parecia alguém do mal. Fiquei apavorado. Corri até o quarto azul e voltei a jogar Playstation para me aclamar. Escolhi um jogo de monstros assassinos. Tipo para maiores de 14 anos. E senti um medo medenho. As outras pessoas tinham saido... Estavámos só nós dois naquela casa imensa... sapos, gritos, vento forte, eu ainda pequeno... nem lembro quantos tinha. Que bom que minha mãe chegou logo. Tudo clareou, meu coração se aclamou.

domingo, 5 de setembro de 2010

tombo de meu pai

subir escadas ajuda nas tarefas mais diversas da vida
cair de uma escada, sem metáforas,
nos ajuda também a pensar na fragilidade nossa

como uma simples queda pode doer pé, pernas, braços, coluna?
pode qualquer coisa
mas só não se pode ficar sem o sentir do peso da gravidade
na frágil carne humana

cair humaniza a todos nós arrogantes da hora
cai tudo
ficamos pequenos

sábado, 4 de setembro de 2010

relato 1

Acordei cedo. Na verdade nem dormi direito com tantos pensamentos: a casa para arrumar, o almoço,o trabalho, o sonhado livro que ainda não publiquei, o namorado, o ex-marido, os filhos... Fiquei na cama tantando acalmar a mente. Deixei o corpo parado. Até parecia que tudo estava tranquilo. Abri os olhos ainda escuro e procurei saber as horas no relógio, o céu enganava. Já era tarde. Acordei os meninos... ainda tinha tarefas atrasadas para fazer.Corre-corre geral: cadernos, banheiro, farda, leite, mochila, me visto rapidamente etc. Saímos atrasados para não variar. Para me culpar, lógico! Após deixá-los no colégio saio correndo para o trabalho me lembrando sempre da casa virada, do almoço, do frango de ontem na geladeira, do defeito da máquina de lavar, tento produzir mas pouco faço. Alguns telefonemas, emails, volto para o colégio-casa-almoço-máquina-orçamento-incertezas-cansaço. Enfim eles crescem tão lindos... e os meus cabelos caindo!

outro cão

Ano passado lamentei aqui a partida de um cão de minha vida. Agora comento a chegada de um novo (um Beagle fofo - "DRADE" - de dois meses). Desta vez escolhi não me aproximar. Não quero contato. Seremos dois estranhos vivendo no mesmo teto. Acho que ele me compreende. Não reclamamos de afetos ou de cuidados. Estamos quites. Até quando essa história vai correr na parealela? Veremos. Não quero amor de cão. Agora não! Nem posso explicar aqui...

papel parede

gostei da cena velha ao fundo das palavras
figuradas na tela
as imagens do cenário casam com o meu sentimento: ser e estar velha
esquisitice minha de agora

ontem passei em uma loja de sapatos e olhei para os sapatos de senhora
não sou menina, não quero ser jovenzinha, fiquei feliz com esta certeza

as inseguranças diminuem?
talvez...
percebo que as ilusões diminuem... e isso é muito bom e doloroso!
e os sonhos?
acalento-os com carinhos pois andam minguados...raros... preciosos.