terça-feira, 2 de novembro de 2010

hoje

meus mortos ainda são poucos
mas eu mesma já morri várias vezes

morro de inveja de outros
morro de desejo inconfessáveis
morro de vergonha de procrastinar tanto
morro de compaixão pela miséria de gente
morro de fome
morro de sono
no sonho afogada, queimada, esquecida

morro de amor
vivo morrendo

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

coisas de Betinho

... ah,ele adora teatro

comendo qualquer coisa - pipoca refri-, claro
enquanto mãos e boca trabalham
os olhos arregalados acompanham a cena

bate palma quase sempre pede bis
não se cansa das figurações, dos roteiros

já tem planos de ser também um ator
pois ele não é bobo: brincar de ser outras gentes
deve ser mais divertido...

bestando na madrugada

a calma da casa
o silêncio quando todos os homens dormem
os meus pensamentos ruidosos
o zumbido do micro
os carros na avenida
a tela-página branca
desespero nenhum
tenho mais de 40
metade da vida
deixa a gente menos de tudo
até da necessidade do sempre querer algo
vou dormir
em quase-paz

fui
fomos
f

domingo, 12 de setembro de 2010

acordei tarde

a fome sem vontade de comer é esquisita
amolece tudo
até a vigorosa batalha
de querer estar viva

mas passa logo logo
e devoro qualquer coisa com urgência

sábado, 11 de setembro de 2010

isto e aquilo

quero tudo isso
talvez aquilo
o que nem sei o que é
nisso fico feliz de querer aquilo
isto me deixa mais esperta
para brincar de viver

bursite

como dói as bursas inflamadas
bolsas assim assim "maltratadas"
limitam os movimentos do meu corpo

meu ombro esquerdo carrega tantos sonhos
poucos possíveis
de uma esquerda
de luta

terça-feira, 7 de setembro de 2010

caixinha de música

carrego em meu carro
a caixa velha de um rádio que foi do meu avó Zeca
objeto de luxo da casa no sertão central do Ceará
me lembro que desta caixa ecoavam músicas de Roberto Carlos, Antonio Marcos, Angela Maria, Luiz Gonzaga

explicando: o miolo do rádio se foi
talvez com defeito ou sem jeito a loja de conserto
o jogou no lixo

a questão é que a caixa serve mesmo assim
já que é um material que me liga há tempos perdidos
que nem busco mais

razão: carrego a velha caixa para ajustar a deterioração dos cupins
que comem com voraciadade pedaços da minha infância

nem sei bei como dar um jeito nesta história
talvez nem haja jeito


as andanças pra lá e pra cá da caixa a balançar nas ruas da cidade
de repente posso ter um acesso de desapelo
e dar um fim nestes sons que em perseguem


Ah, sim, tenho outros objetos: um banco, uma cadeira
peso vivo da memória da família

às vezes até me canso
não sou eles e elas
eu sou assim
assim
assim
as
A

pesada da vida alheia