nos últimos anos a minha vida esteve perpassada por um trem
inquietante recorrência de mineiros bravos
depois da convivência com trilhos e seus apelos sonoros
pode-se entender que ninguém fica impune à máquina
trem não percorre em água
trem corta o ar centrado na terra
firme atrito de linhas leves que permitem a passagem
só os trilhos são de pesadas e necessárias linhas de ferros
trem na rede da estrada intenso tráfego
horários inflexíveis funcionamento preciso
rota tão prioritária que as outras linhas de comunicação
ao cruzarem uma linha de estrada de ferro
vêem seu tráfego interrompido logo que aparece um trem
trem ligando regiões estabelecendo comunicações e intercâmbios
mas o trem também é real pode ser de carne artéria e osso
atravessa a vida
um trem passou na minha...
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
o tempo passsa e a ...
meus sobrinhos já foram pequenos
eram simplesmente dany, re, dedeia, mary e luquete
hoje peitos bigodes projetos carteiras de motorista
astutos da vida
mandam até a tia crescer
eram simplesmente dany, re, dedeia, mary e luquete
hoje peitos bigodes projetos carteiras de motorista
astutos da vida
mandam até a tia crescer
micro narrativa
paracuru
dois meninos correm pela areia
o pequeno quer a bola
mas o vento insiste em jogá-la bem ligeiro
o outro garoto já crescido faz pose de cientista
arranca moluscos das pedras vida das pedras
haja pensar para tanto chute
haja balde para tantas idéias
dois meninos correm pela areia
o pequeno quer a bola
mas o vento insiste em jogá-la bem ligeiro
o outro garoto já crescido faz pose de cientista
arranca moluscos das pedras vida das pedras
haja pensar para tanto chute
haja balde para tantas idéias
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
alimentando as baratas
me parece que algumas mulheres não deitam ou talvez nem durmam bem
antes que a louça esteja limpa, guardada e a casa em ordem
tantas vezes adoro deixar tudo imundo até a última colher
fico até contente com a minha capacidade imprestável para ser dona de casa:
pia lotada aguça minha esperteza
para encontrar algo nos armários
depois viro um furacão ao contrário
tudo limpinho
antes que a louça esteja limpa, guardada e a casa em ordem
tantas vezes adoro deixar tudo imundo até a última colher
fico até contente com a minha capacidade imprestável para ser dona de casa:
pia lotada aguça minha esperteza
para encontrar algo nos armários
depois viro um furacão ao contrário
tudo limpinho
domingo, 21 de outubro de 2007
meu pedacinho de tudo


mucuripe
é dia e tudo é dia à frente o mar seus barcos
botes escunas jangadas enfeitam o sol
gente alegre pobre espremida entre os prédios
é bola bicicleta e pernas de caminhada
peixe fresco cheiro de camarão-alho- óleo
esgoto catinga amores sabores mais odores da lama da cama da cana
perto das dunas que desabam igreja cemitério
cais do porto de iates de moinho de farinha do pão
alegria felicidade da gente do povo da cidade
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
estou aqui pensando na vida...e me lembro de:
O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.
Haverá mesmo algum pensamento
sobre essa noite? sobre esse vento?
sobre essa folha que se vai?
Cecília Meireles
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Decalógo do leitor
Compartilho esse curioso texto publicado no site do ENTRELIVROS...
Por Alberto Mussa
I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.
II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.
III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.
IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.
V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.
VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.
VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.
VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.
IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.
X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.
http://www2.uol.com.br/entrelivros/reportagens/decalogo_do_leitor_2.html.
Acesso em outubro de 2007.
Por Alberto Mussa
I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.
II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado, Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.
III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.
IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.
V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.
VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.
VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.
VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.
IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.
X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.
http://www2.uol.com.br/entrelivros/reportagens/decalogo_do_leitor_2.html.
Acesso em outubro de 2007.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Que presente!
Que tal no Dia da Criança você ganhar um presente bem especial? Poderia escrever bastante sobre as suas características. Mas aí escolhi somente algumas dicas.
Primeiro é uma fantástica fonte de energia vital, com superpoderes. É muito dinâmico, ou seja, exige ação e movimento. É uma maravilhosa fábrica de mundos possíveis. Ah, e possibilita que você realize viagens incríveis por paisagens nunca antes imaginadas. Pode fazer você rir muito, pois tem várias nascentes de alegria. Também deixa você mais otimista. Nesse incrível objeto você encontra cinema, teatro, aventura, amor, poesia, pois cabe tudo dentro dele. Dura muito, ou melhor, pouco se gasta com o passar dos tempos. É bom saber que pode ser emprestado sem nenhum prejuízo para você. Pense em um companheiro de toda vida, um confidente, um amigo mesmo? E sim! Ainda é fácil de carregá-lo? Por fim, nem é tão caro comparado com os valores de muitos outros brinquedos. E o prazer que você sente com esse presente é enoooooooorme! Acredite. É pura verdade verdadeira. Ora, ora que descrição comprida! Então, estou falando de que presente?Imaginou?Se você pensou em um livro, acertou mesmo! Um simples livro. Um livro que pode ser encontrado facilmente em muitos lugares, pode mexer com a sua vida para sempre.Experimente essa idéia!
Diário do Nordeste , 07.out. 2007.
Primeiro é uma fantástica fonte de energia vital, com superpoderes. É muito dinâmico, ou seja, exige ação e movimento. É uma maravilhosa fábrica de mundos possíveis. Ah, e possibilita que você realize viagens incríveis por paisagens nunca antes imaginadas. Pode fazer você rir muito, pois tem várias nascentes de alegria. Também deixa você mais otimista. Nesse incrível objeto você encontra cinema, teatro, aventura, amor, poesia, pois cabe tudo dentro dele. Dura muito, ou melhor, pouco se gasta com o passar dos tempos. É bom saber que pode ser emprestado sem nenhum prejuízo para você. Pense em um companheiro de toda vida, um confidente, um amigo mesmo? E sim! Ainda é fácil de carregá-lo? Por fim, nem é tão caro comparado com os valores de muitos outros brinquedos. E o prazer que você sente com esse presente é enoooooooorme! Acredite. É pura verdade verdadeira. Ora, ora que descrição comprida! Então, estou falando de que presente?Imaginou?Se você pensou em um livro, acertou mesmo! Um simples livro. Um livro que pode ser encontrado facilmente em muitos lugares, pode mexer com a sua vida para sempre.Experimente essa idéia!
Diário do Nordeste , 07.out. 2007.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Outubro, as formigas, hibridismo cultural
Lendo a crônica “Tanajura como alimento” de Drummond, me senti próxima, íntima do poeta que lá interior mineiro também já se deliciou outrora com essas formiguinhas vitaminadas. Lendo, despreocupadamente, pensei nas tanajuras da minha infância voando em bando, aos milhares, povoando as minhas memórias. Que brega, hein? Mas é isto mesmo. Escuto agora até os sons, sinto o cheiro... Pensei naqueles momentos após as chuvas em que as formiguinhas rechonchudas passeavam pela terra fértil para se deleitarem com o ar puro. Mas era assim mesmo? Sei lá. Verdade verdadeira só resta esse fragmento de vivência infantil... pedaços. Mas vamos às memórias.
Saíamos com as nossas latas (de leite ninho, geralmente) para os formigueiros nos arredores de nossa casa. Eram tantos formigueiros que não havia problema de inflação da colheita, ou seja, as danadinhas eram muitas, milhares, milhões talvez. E na caça, dançávamos ao redor da morada das tanajuras, os buracos, pulando diante das possíveis ferroadas. Era pura guerra. Tudo valia a presa ou a conquista. As bichinhas tão indefesas eram, aos montes, rapidamente postas em nossas latinhas que ficavam entupidas das coisinhas que faziam muito barulho, talvez comunicando o desepero da morte eminente. Barulhentas. Eram muito zoadentas. O que interessa é que corríamos para casa para a grande farra. Não do boi mas dos insetos. Primeiramente a gente decepava, tirava os seus ferrões, e, em seguida, amputávamos as suas perninhas. Uma a uma. Depois, panela e óleo bem quente. Que maldade! O cheiro que resultava desta combinação era tão especial que podia ser sentido à distância. Com poucos minutos ficavam tostadinhas, e, com um pouquinho de farinha resultava uma mistura tipo preto no branco. Muito especial. E finalmente: direto para a boca. Pura proteína.
Falei rápido?
Síntese: as formiguinhas que adoram devorar eram devoradas sem piedade.
Saíamos com as nossas latas (de leite ninho, geralmente) para os formigueiros nos arredores de nossa casa. Eram tantos formigueiros que não havia problema de inflação da colheita, ou seja, as danadinhas eram muitas, milhares, milhões talvez. E na caça, dançávamos ao redor da morada das tanajuras, os buracos, pulando diante das possíveis ferroadas. Era pura guerra. Tudo valia a presa ou a conquista. As bichinhas tão indefesas eram, aos montes, rapidamente postas em nossas latinhas que ficavam entupidas das coisinhas que faziam muito barulho, talvez comunicando o desepero da morte eminente. Barulhentas. Eram muito zoadentas. O que interessa é que corríamos para casa para a grande farra. Não do boi mas dos insetos. Primeiramente a gente decepava, tirava os seus ferrões, e, em seguida, amputávamos as suas perninhas. Uma a uma. Depois, panela e óleo bem quente. Que maldade! O cheiro que resultava desta combinação era tão especial que podia ser sentido à distância. Com poucos minutos ficavam tostadinhas, e, com um pouquinho de farinha resultava uma mistura tipo preto no branco. Muito especial. E finalmente: direto para a boca. Pura proteína.
Falei rápido?
Síntese: as formiguinhas que adoram devorar eram devoradas sem piedade.
Meta(formo)se de Leminski
Seguem fragmentos ou insights da leitura do livro de Leminski apreciado no século passado. O critério de seleção foi e é totalmente sensibilante, isto é, o que bateu aos olhos, ouvidos, ou ao coração.
• Teseu limpa a espada no manto e sai, com uma morte na alma do tamanho da noite.
• Tudo pode se transmutar em tudo.
• Esta noite, nada permanece em seu ser, os seres padecem as dores do parto das mais improváveis alterações.
• ... sagradas todas as árvores que o raio, falus, de Zeus tocou.
• Água, sangue, vinho: que deus escondeu na uva o vento louco da embriaguez?
• Os homens são os órgãos sexuais das fábulas.
• Narro, logo existo.
• O luminoso princípio vai sair vitorioso das forças noturnas do Caos primordial, como Apolo sobre a serpente Python, as maternas forças noturnas, do interior da vagina, os calores subterrâneos, a fecundidade indiscriminada dos abismos femininos, a serpente, o verme, o fedor, o formigamento fértil da terra, água e sol.
• Que é um eco senão a transformação de uma voz em pedra, no eternamente idêntico a si, mesmo, como fazem as letras do alfabeto, inventadas por aquele Cadmo, filho de Agenor, rei da Fenícia, e da rainha Telefasse?
• Amor é aquilo que subsiste mesmo depois de você dizer, não te amo mais.
• Se espelho existe, ser não existe.
• Esta fonte é uma fossa, esgoto, lixo, cloaca de mitos.
• Mitos mortos fedem, o cheiro dos reis mortos, rios estrangulados por Hércules.
• ... amar é ficar fora de si, por um tempo, e, depois, voltar, outro.
• Se eu pudesse escolher outra coisa que não Narciso, em que me transformaria? Narciso, Narciso, Narciso.
• Amar é sempre mais.
• ... a letra é a morte da memória, olhar de Medusa no havido, havendo e por haver.
• Águas de sangue, águas de vinho, por Dionísio!, por que não bebo toda esta fonte num gole só?
• Ave, Pandora, mãe dos mortais abre esta tua caixa-buceta, e deixa que todos os males se exalem, só fique no fundo a esperança, calcanhar de Aquiles onde dói ser semi-deus.
• Esta fonte é esgoto de mitos, merda feita de sangue, sangue feito de porra, donde vem tanta força, formas de formas se transformando em novas formas?
• Uma história, sempre uma história, tudo termina em fábula, milagre, acaso, evento de probabilidade nula.
• O amor é amoral. Eu me amo não posso mais viver sem mim.
• Quem me dera uma máscara para repousar meu rosto de todo este vão mudar.
• Não se pense que vou ficar assim a vida toda. Um dia, eu mudo, vão ver.
• No carnaval das transformações, passa a sombra de Medusa, dor sem fim de virar pedra.
• Sempre virar, sempre mudar, nunca se sustentar em seu próprio ser.
• Tudo são deuses, o medo, o acaso, a esperança, tudo filhos do destino.
• Rios passam, não passa este meu rosto.
• A dor é um deus, dor ninguém esquece.
• Só esquecer é eterno.
• Que espelho poderia conter o sol? Mito, rito, minto mundos, enquanto vomito três mil deuses por segundo, a fonte é uma poça de vômito e sangue, desaparecendo meu rosto sem igual.
• Eco, eco, Medéia, Circe, todas malfeitoras.
• Sinto cheiro de buceta, meio rosa, meio peixe, que deus tira o outro do lugar?
• Como todo eco, nem todo ego é cego.
• Água na água, eco no eco, por todos os séculos dos séculos dos séculos dos séculos dos séculos dos super-hiper dos supra-tempos de além-milênios...
• Morreu um deus, morrem todos, a teia de Aracne, a tela de Penélope é inconsútil.
• Ouço ao longe, muito longe, a voz do eco que me chama, mas já não tenho um nome para ser chamado. Que deuses me tomam como matéria-prima? Em que fábula me transformo?
• (Narciso morre de sede, ao beber sua imagem).
• Mito (fábula), conceito e número: esses os três instrumentos com que a mente humana procura colocar ordem no caos desconexo dos fenômenos.
• Mito, fábula, imaginação: quem não tem imaginação, não tem religião.
• A inesgotavelmente luxuriante opulência do imaginário grego antigo é um prodígio (mais rico, só o Catolicismo).
• De Homero a Goethe, passando por Dante e Shakespeare, numa linha ininterrupta, durante mais de dois mil anos, o imaginário grego sempre foi o primeiro alimento do poeta ocidental culto, seu “soft-ware” de fantástico, referencial de imagens, delírios compartilhado.
• Os gregos parecem ter imaginado todo o imaginável.
• O mito é o saber oral.
• O mundo do Mito é o mundo intra-uterino da crença. A Flexão. A genuflexão.
• A modernidade começa com um pensar sobre os Mitos.
• Não basta mais crer, receber e aceitar. Os filhos de Prometeu se rebelam.
• Essências, metamorfoses: essas as matérias-primas com que trabalha o tão estável e instável espírito humano.
• “Mito” é palavra fundadora, a fábula matriz, a estrutura primordial, leitura analógica do mundo e da vida.
• O mistério da vida se explica com os mistérios das fábulas. As fábulas contém a chave semântica última dos eventos e efemérides.
• Um Mito não se supera.
Fortaleza, 1995
• Teseu limpa a espada no manto e sai, com uma morte na alma do tamanho da noite.
• Tudo pode se transmutar em tudo.
• Esta noite, nada permanece em seu ser, os seres padecem as dores do parto das mais improváveis alterações.
• ... sagradas todas as árvores que o raio, falus, de Zeus tocou.
• Água, sangue, vinho: que deus escondeu na uva o vento louco da embriaguez?
• Os homens são os órgãos sexuais das fábulas.
• Narro, logo existo.
• O luminoso princípio vai sair vitorioso das forças noturnas do Caos primordial, como Apolo sobre a serpente Python, as maternas forças noturnas, do interior da vagina, os calores subterrâneos, a fecundidade indiscriminada dos abismos femininos, a serpente, o verme, o fedor, o formigamento fértil da terra, água e sol.
• Que é um eco senão a transformação de uma voz em pedra, no eternamente idêntico a si, mesmo, como fazem as letras do alfabeto, inventadas por aquele Cadmo, filho de Agenor, rei da Fenícia, e da rainha Telefasse?
• Amor é aquilo que subsiste mesmo depois de você dizer, não te amo mais.
• Se espelho existe, ser não existe.
• Esta fonte é uma fossa, esgoto, lixo, cloaca de mitos.
• Mitos mortos fedem, o cheiro dos reis mortos, rios estrangulados por Hércules.
• ... amar é ficar fora de si, por um tempo, e, depois, voltar, outro.
• Se eu pudesse escolher outra coisa que não Narciso, em que me transformaria? Narciso, Narciso, Narciso.
• Amar é sempre mais.
• ... a letra é a morte da memória, olhar de Medusa no havido, havendo e por haver.
• Águas de sangue, águas de vinho, por Dionísio!, por que não bebo toda esta fonte num gole só?
• Ave, Pandora, mãe dos mortais abre esta tua caixa-buceta, e deixa que todos os males se exalem, só fique no fundo a esperança, calcanhar de Aquiles onde dói ser semi-deus.
• Esta fonte é esgoto de mitos, merda feita de sangue, sangue feito de porra, donde vem tanta força, formas de formas se transformando em novas formas?
• Uma história, sempre uma história, tudo termina em fábula, milagre, acaso, evento de probabilidade nula.
• O amor é amoral. Eu me amo não posso mais viver sem mim.
• Quem me dera uma máscara para repousar meu rosto de todo este vão mudar.
• Não se pense que vou ficar assim a vida toda. Um dia, eu mudo, vão ver.
• No carnaval das transformações, passa a sombra de Medusa, dor sem fim de virar pedra.
• Sempre virar, sempre mudar, nunca se sustentar em seu próprio ser.
• Tudo são deuses, o medo, o acaso, a esperança, tudo filhos do destino.
• Rios passam, não passa este meu rosto.
• A dor é um deus, dor ninguém esquece.
• Só esquecer é eterno.
• Que espelho poderia conter o sol? Mito, rito, minto mundos, enquanto vomito três mil deuses por segundo, a fonte é uma poça de vômito e sangue, desaparecendo meu rosto sem igual.
• Eco, eco, Medéia, Circe, todas malfeitoras.
• Sinto cheiro de buceta, meio rosa, meio peixe, que deus tira o outro do lugar?
• Como todo eco, nem todo ego é cego.
• Água na água, eco no eco, por todos os séculos dos séculos dos séculos dos séculos dos séculos dos super-hiper dos supra-tempos de além-milênios...
• Morreu um deus, morrem todos, a teia de Aracne, a tela de Penélope é inconsútil.
• Ouço ao longe, muito longe, a voz do eco que me chama, mas já não tenho um nome para ser chamado. Que deuses me tomam como matéria-prima? Em que fábula me transformo?
• (Narciso morre de sede, ao beber sua imagem).
• Mito (fábula), conceito e número: esses os três instrumentos com que a mente humana procura colocar ordem no caos desconexo dos fenômenos.
• Mito, fábula, imaginação: quem não tem imaginação, não tem religião.
• A inesgotavelmente luxuriante opulência do imaginário grego antigo é um prodígio (mais rico, só o Catolicismo).
• De Homero a Goethe, passando por Dante e Shakespeare, numa linha ininterrupta, durante mais de dois mil anos, o imaginário grego sempre foi o primeiro alimento do poeta ocidental culto, seu “soft-ware” de fantástico, referencial de imagens, delírios compartilhado.
• Os gregos parecem ter imaginado todo o imaginável.
• O mito é o saber oral.
• O mundo do Mito é o mundo intra-uterino da crença. A Flexão. A genuflexão.
• A modernidade começa com um pensar sobre os Mitos.
• Não basta mais crer, receber e aceitar. Os filhos de Prometeu se rebelam.
• Essências, metamorfoses: essas as matérias-primas com que trabalha o tão estável e instável espírito humano.
• “Mito” é palavra fundadora, a fábula matriz, a estrutura primordial, leitura analógica do mundo e da vida.
• O mistério da vida se explica com os mistérios das fábulas. As fábulas contém a chave semântica última dos eventos e efemérides.
• Um Mito não se supera.
Fortaleza, 1995
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
texto lido
FOLHA DE SÃO PAULO, quarta-feira, 03 de outubro de 2007.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Agora e na hora da nossa morte
A velhice é o início de uma batalha. E, pior que isso, é o começo de um massacre que todo homem experimentará
O PROBLEMA da velhice é a invisibilidade. Creio que era Bioy Casares quem contava a mágoa: ele, outrora belo na juventude, caminhando pelas ruas e percebendo que as mulheres já não devolviam o olhar como antigamente. Um fantasma entre os vivos. E os vivos não olham para um fantasma.Lembrei Bioy Casares ao ler "Homem Comum" (Cia. das Letras), a novela de Philip Roth. Existe passagem semelhante: quando o personagem envelhecido inicia diálogo com uma mulher mais jovem que corre na praia. Ela sorri, ela responde. Ela aceita o telefone dele e promete ligar de volta. Nunca liga. O fato é escrito com a secura de Roth. Mas chega para entender o essencial: a velhice é o início de uma batalha. E, pior que isso, é o início de um massacre."Homem Comum" é a história desse massacre que todos os homens comuns vão experimentar. Millôr Fernandes costumava dizer que o problema da morte é não ser possível espantar as moscas. Fato, mestre, fato. Mas o pior vem antes: quando a doença se instala, esse exército interior na conquista do seu território. E, com a doença, a solidão do confronto com o fim.Críticos vários escreveram que a novela de Roth revisita Tolstói. Sem dúvida. E não deixa de ser estranho que a literatura dos últimos cem anos tenha dedicado tão pouco espaço a esse calvário nosso: o momento em que o corpo desperta do seu anonimato para resgatar a sua mortalidade. Amor e sexo? Tudo visto. Poder e ambição? Tudo lido. Mas faltam as banalidades terrenas. Faltam os terrores mais banais.Tolstói é uma exceção, sim. E o seu "A Morte de Ivan Ilyich" é provavelmente o relato definitivo da experiência. Uma dor que chega sem aviso, como sempre chega, à vida perfeita de Ivan. A perfeição que se desfaz. E a saúde dos outros, que ganha contornos ofensivos aos olhos enfermos do enfermo. Lentamente, Ivan deixa de ser uma presença válida na vida de terceiros; passa a ser um empecilho, um embaraço, uma piada de mau gosto.Roth repete a dose. Como em Tolstói, a experiência é fortemente individualizada porque a doença e a morte só ganham contornos reais e universais quando acontecem na vida comum de um indivíduo. Mas, ao contrário de Tolstói, não há no personagem de Roth a consciência tranqüila que, apesar de tudo, redime Ivan no final: as páginas mais pungentes de "A Morte de Ivan Ilyich" acontecem quando o moribundo revisita uma vida aparentemente escorreita e pergunta simplesmente por que: por que ele, por que agora, por que assim.O personagem de Roth sabe que a pergunta lhe está interdita: ele alienou os vivos por fraqueza, egoísmo ou luxúria. E, num mundo sem Deus, resta-lhe a consolação dos mortos: os mortos que ele visita no cemitério final, conversando e até gratificando, por irônica antecipação, o coveiro que o acabará por enterrar.Enganam-se os que acreditam que os relatos breves de Roth são pausas para obras maiores. "Homem Comum" é uma obra maior e será um dia lido e falado como hoje lemos e falamos de Ivan Ilyich.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Agora e na hora da nossa morte
A velhice é o início de uma batalha. E, pior que isso, é o começo de um massacre que todo homem experimentará
O PROBLEMA da velhice é a invisibilidade. Creio que era Bioy Casares quem contava a mágoa: ele, outrora belo na juventude, caminhando pelas ruas e percebendo que as mulheres já não devolviam o olhar como antigamente. Um fantasma entre os vivos. E os vivos não olham para um fantasma.Lembrei Bioy Casares ao ler "Homem Comum" (Cia. das Letras), a novela de Philip Roth. Existe passagem semelhante: quando o personagem envelhecido inicia diálogo com uma mulher mais jovem que corre na praia. Ela sorri, ela responde. Ela aceita o telefone dele e promete ligar de volta. Nunca liga. O fato é escrito com a secura de Roth. Mas chega para entender o essencial: a velhice é o início de uma batalha. E, pior que isso, é o início de um massacre."Homem Comum" é a história desse massacre que todos os homens comuns vão experimentar. Millôr Fernandes costumava dizer que o problema da morte é não ser possível espantar as moscas. Fato, mestre, fato. Mas o pior vem antes: quando a doença se instala, esse exército interior na conquista do seu território. E, com a doença, a solidão do confronto com o fim.Críticos vários escreveram que a novela de Roth revisita Tolstói. Sem dúvida. E não deixa de ser estranho que a literatura dos últimos cem anos tenha dedicado tão pouco espaço a esse calvário nosso: o momento em que o corpo desperta do seu anonimato para resgatar a sua mortalidade. Amor e sexo? Tudo visto. Poder e ambição? Tudo lido. Mas faltam as banalidades terrenas. Faltam os terrores mais banais.Tolstói é uma exceção, sim. E o seu "A Morte de Ivan Ilyich" é provavelmente o relato definitivo da experiência. Uma dor que chega sem aviso, como sempre chega, à vida perfeita de Ivan. A perfeição que se desfaz. E a saúde dos outros, que ganha contornos ofensivos aos olhos enfermos do enfermo. Lentamente, Ivan deixa de ser uma presença válida na vida de terceiros; passa a ser um empecilho, um embaraço, uma piada de mau gosto.Roth repete a dose. Como em Tolstói, a experiência é fortemente individualizada porque a doença e a morte só ganham contornos reais e universais quando acontecem na vida comum de um indivíduo. Mas, ao contrário de Tolstói, não há no personagem de Roth a consciência tranqüila que, apesar de tudo, redime Ivan no final: as páginas mais pungentes de "A Morte de Ivan Ilyich" acontecem quando o moribundo revisita uma vida aparentemente escorreita e pergunta simplesmente por que: por que ele, por que agora, por que assim.O personagem de Roth sabe que a pergunta lhe está interdita: ele alienou os vivos por fraqueza, egoísmo ou luxúria. E, num mundo sem Deus, resta-lhe a consolação dos mortos: os mortos que ele visita no cemitério final, conversando e até gratificando, por irônica antecipação, o coveiro que o acabará por enterrar.Enganam-se os que acreditam que os relatos breves de Roth são pausas para obras maiores. "Homem Comum" é uma obra maior e será um dia lido e falado como hoje lemos e falamos de Ivan Ilyich.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
ausência canina
a tristeza do meu filho
pela ausência de seu cachorro
me dói mais ainda na pele
pois parece que abriu um rombo negro
na estrutura da sua pequena casa
um rombo que pode até ser tapado
- todos os rombos se tapam -
mas ficará sempre à vida o remendo
e a saudade
pela ausência de seu cachorro
me dói mais ainda na pele
pois parece que abriu um rombo negro
na estrutura da sua pequena casa
um rombo que pode até ser tapado
- todos os rombos se tapam -
mas ficará sempre à vida o remendo
e a saudade
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
desapego
minha mãe nunca me deixou criar bicho em casa
gato cachorro não era para ter apego a nada
casa coisa animal ou gente
mudar de endereço rápido sem despedidas
foram muitas casas ruas bairros
põe tudo no caminhão e íamos embora sem olhar pra trás
minha mãe me educou para ser livre
contudo me apeguei a tudo como boa filha desobediente
de pé-de-pau a gente e aos bichos que não tive
gato cachorro não era para ter apego a nada
casa coisa animal ou gente
mudar de endereço rápido sem despedidas
foram muitas casas ruas bairros
põe tudo no caminhão e íamos embora sem olhar pra trás
minha mãe me educou para ser livre
contudo me apeguei a tudo como boa filha desobediente
de pé-de-pau a gente e aos bichos que não tive
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