Ana Miranda recria linguagem em novo romance
Carolina Leal, Jornal do Brasil
RIO - O romance é narrado na interlíngua da índia Yuxin, aparecendo também vozes dos animais, rios, plantas e até representações do silêncio. Como surgiu essa ideia?
A gênese do romance é um sonho. Quando eu escrevia meu primeiro romance, Boca do Inferno, li os textos instrumentais do padre Vieira e me impressionei com as situações vividas por ele, entre os índios. Sonhei então que eu chegava a uma clareira onde havia apenas uma cabana de palha. Padre Vieira estava em pé, diante dessa casa, com a roupeta toda rasgada, e a seus pés uma índia ajoelhada remendava os rasgos do hábito do padre. Foi um sonho muito nítido. Anotei-o e pensei em escrever um livro a partir dessa cena. Uma índia e um padre. Durante duas décadas o livro fermentou dentro de mim, e quando em 2002 fui passar uma temporada na propriedade de minha irmã, Marlui Miranda, que fica no Embu das Artes, perto de São Paulo, dentro de uma reserva de Mata Atlântica. Ela é musicista e trabalha com a cultura indígena, senti a atmosfera perfeita para abordar o mundo indígena. A presença da música indígena, de objetos, da floresta em torno, ou dos próprios índios... Já o havia feito, antes, em outro romance, o Desmundo, em que a índia Temericô aparece quase como a alma do Novo Mundo.
No Desmundo, já havia a aproximação da fala na linguagem. Yuxin é a culminância dessa tentativa?
Sim, Yuxin pode ser visto como uma culminância em termos de experimentação. Apesar de parecer uma linguagem simples, coloquial, sua elaboração foi muito trabalhosa. Como narro na primeira pessoa, a minha ideia era ouvir apenas a voz de índios e índias, depoimentos, narrativas, frases, cantigas... Qualquer expressão que eu encontrava, dita por um índio, era preciosa para mim. Fui recolhendo penosamente, pois o material que encontrei era parco em dar voz ao índio. Uma frase aqui, uma frase ali... E quando era um livro escrito por um índio, a sensação era de que a dicção tentava ser não-índia, mesmo quando o tema era autêntico. Foi muito difícil encontrar a voz dessa índia narradora. Ela não estava nos livros que eu encontrava. Não estava na língua portuguesa, por isso foi criada uma interlíngua. Eu tive que abrir o caminho das pedras.
Que autores e obras você consultou para a elaboração do romance?
Um dos livros mais importantes foi a Enciclopédia da floresta, organizada por Manuela Carneiro da Cunha e Mauro de Almeida. Embora eu tenha encontrado esse livro quando o meu romance já estava quase pronto, ele foi uma fonte muito rica, e pude amarrar diversas linhas do romance a partir do que encontrei no trabalho excepcional desses antropólogos. Outro livro abençoado foi o de um antropólogo francês, Jacques Lizot, que viveu 15 anos entre índios, casou com uma índia, e escreveu seu livro em plena floresta. O mais curioso é a tradução que ele faz dos depoimentos dos índios, dando uma conotação mais complexa à fala. Também amei um livro sobre árvores, todo desenhado e narrado por indígenas. E os livros da antropóloga Betty Mindlin, pessoa capaz de uma percepção especial do mundo da floresta. Mas o livro fundamental, que me iluminou acerca da voz da minha índia, Yarina, foi Hantxa huni kuin: fala da gente verdadeira. É um vocabulário maravilhoso recolhido por Capistrano de Abreu no começo do século passado. São cerca de 700 páginas de depoimentos de dois índios que Capistrano recebeu em casa, vindos do Acre. O Acre é quase um filho do Ceará, foram mandadas duas grandes levas de bravos cearenses para o trabalho nas seringas, no apogeu do ciclo da borracha.
Você inclusive dedica o livro a Capistrano de Abreu, o historiador brasileiro cujas pesquisas foram marcadas pela etnografia e linguística.
O Hantxa huni kuin eu encontrei quando estava perto de desistir de escrever naquele momento o livro indígena, pelas dificuldades quase insuperáveis de encontrar a fala, a alma da índia narradora. E descobri que o livro tinha sido escrito para mim. A cada página eu ficava suspensa, sem ar, de tão fascinada. É um livro quase ilegível, pois ali Capistrano reproduz a fala do índio, com a tradução literal feita na mesma ordem sintática, com todas as repetições, todas as sonoridades, ali pude sentir o que é uma voz indígena, pude sentir o ritmo, que é completamente avesso a nossa existência urbana e ególatra, é algo primordial, que reproduz a natureza e a harmonia quase alquímica, a metamorfose constante entre os elementos da floresta, sejam pessoas, animais, árvores, bichos, sons, espíritos... Era o caminho das pedras que surgia, e bastou, então, reler e reler e reler e copiar e copiar e copiar as páginas, até que o meu pensamento se amalgamasse àquele mundo linguístico e eu passasse a fazer parte dele, e ele de mim, de forma profunda e verdadeira. Foi uma experiência terrível, mas fascinante, porque tenho muito medo de floresta.
Os capítulos de Yuxin são como verbetes que explicam na interlíngua a visão da índia sobre ações, sentimentos e elementos da natureza. Os capítulos são divididos em “Uaninu” (longe), “Bene Wai” (esposar), “Detenamei” (guerrear), “Yuxin" (alma) e ”Hatiski“ (fim). Por que você adotou um estilo que se assemelha às definições dos verbetes?
Você percebeu muito bem. São verbetes. Na verdade são verbetes de Capistrano de Abreu que dão título aos pequenos capítulos e às partes do livro. Como se eu estivesse ecoando o trabalho de Capistrano de Abreu, respondendo a ele, sendo-lhe fiel e mantendo-o presente a cada página, a cada novo sentimento, ou ação. Ele apresenta no fim de seu livro dois vocabulários, um de noções indígenas, outro de noções não-indígenas apresentadas aos depoentes. De extrema sensibilidade. A natureza do material determina quase tudo num romance.
Você trabalhou, como atriz, no filme Como era gostoso o meu francês, de Nelson Pereira dos Santos, que tinha como tema, no Brasil de 1594, a prisão de um aventureiro francês por índios tupinambás. Quando foi produzido o filme, nos anos 70, você já tinha afinidade com a cultura indígena?
Não fui atriz, apenas fiz uma figuração de menos de um minuto no filme. Eu estava lá porque era casada com o ator do filme, o Arduino Colasanti, e o Nélson precisou de figurantes, mas eu ajudava mais fazendo pinturas corporais nos atores, ajudando nos cenários, fazendo adornos de penas e conchas. O filme se baseia no depoimento de Jean de Léry, assim como nos desenhos de Théodore de Bry. Eu estava lendo Tristes trópicos, de Claude Lévi-Strauss , e o livro de Jean de Léry, quando conheci o Nelson, que me ensinou muito sobre o Brasil. Claro que há uma presença indígena marcante em minha família, sou de um Estado de origens fortemente indígenas, que é o Ceará, nasci na Praia de Iracema, tive um amigo índio, e minha irmã traz o universo da música indígena para minha vida há décadas. Percebo, além disso, uma afinidade entre minha obra e a vertente de romance aberta por José de Alencar, e que tem como clímax a extraordinária obra de Guimarães Rosa, uma vertente brasilianista, americana e romântica. Minha passagem por escolas formuladas por Darcy Ribeiro também deve ter me influenciado nesse sentido. Ele era antropólogo, viveu entre índios e escreveu mais de 40 mil páginas de diários índios. Há, sim, uma relação pessoal com a cultura indígena, por todas as veias, mas há um projeto maior em minha mente, que tento executar desde Desmundo, que é dar voz feminina a uma multiculturalidade brasileira.
Seus romances têm ligação com a História do Brasil. Boca do Inferno apresenta Gregório de Matos e o padre Vieira como personagens e se passa na Bahia colonial, Desmundo, logo no início da colonização do país. Yuxin é ambientado em 1919 nas matas do Acre. Você se sente atraída de certa forma por uma investigação das origens brasileiras?
Não sinto uma ligação minha com a História do Brasil, mas com a história literária brasileira. E não é propriamente um interesse na investigação das nossas origens, mas uma investigação em nossa língua. O Gregório de Matos, o padre Viera, Augusto dos Anjos, Gonçalves Dias, todos eles personagens de romances meus, são para mim uma fonte linguística, gosto de trabalhar com a intertextualidade, e gosto do enriquecimento que ocorre na relação com o acervo literário. Creio que toda obra literária de valor dialoga com o grande tesouro literário do país, seja por aceitação, seja por negação. No caso de Yuxin, talvez fosse possível elaborar uma índia pura nos dias de hoje, mas a natureza da minha fonte linguística, que é o vocabulário de Capistrano de Abreu, mais os testemunhos do missionário padre Tastevin, determinaram a época. E, a essas alturas da minha vida como escritora, sinto-me sempre mais desenvolta fingindo uma distância inexistente.
Yuxin é apresentado como um livro da biodiversidade.
A biodiversidade é da realidade que o livro apresenta. A narradora Yarina, uma índia que talvez tenha se transformado numa yuxin, conhece os bichos, conhece as árvores, e pensa neles, fala neles, fala com eles, ela os vê, a biodiversidade é natural ao tema. E a exuberância dos elementos no mundo da floresta é avassaladora. Os nomes são lindíssimos, nomes de pássaros, como tié-sangue, maria-triste, katsinarite, mãe-da-lua... Nomes de árvores, nomes de animais, de flores... Uma simples enumeração pode parecer um poema. Os sons, onomatopéias, quase hipnóticos se lidos na íntegra, são preciosidades que fui encontrando sempre, em toda fala de um índio há a citação da voz de algum ser da floresta, encontrei centenas de registros feitos a partir da observação de índios. Sons belíssimos. Minha irmã diz que as índias falam entremeando sons. É essa sonoridade infinita que compõe o livro. O poeta Marco Lucchesi, quando eu estava escrevendo Yuxin, disse o leitmotiv do livro: música.
14:35 - 21/08/2009
Disponível em:http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/08/21/e210823782.asp
Acesso em 5 set.2009
Nenhum comentário:
Postar um comentário